Busquei na minha pequena estante um livro que li há muitos anos atrás e que me impactou demais na época. Chama-se a Alma imoral, do Nilton Bonder. É muito bom realmente. (Ainda espero assistir a peça sobre ele com a Clarice Niskier, um monólogo que está há uns 15 anos em cartaz, fecha parênteses).
Ele é todo grifado. Muito grifado
Notei que essas dezenas de marcações comprometeram a releitura. Fiquei atraída pelos grifos e a obra perdeu o frescor.
Com certeza hoje grifaria outras passagens, ou talvez ele não me impacte mais tanto quanto na época.
Devemos ou não grifar livros? Essa é minha pergunta filosófica nesse dia chuvoso.
Grifamos só o que nos acalenta, como um algoritmo interno que nos leva ao que nos afaga, ou grifamos trechos incômodos também que nos fazem remexer na poltrona?
O que outras pessoas grifariam nele? No leitor digital, quando marcamos alguma passagem, ele informa quantas pessoas também se atentaram pra ela.
Falei que era uma questão filosófica, logo, passo para os grifos que fazemos na nossa vida.
Há quem grife o que considerou bom, alegre e proveitoso na vida, e os que grifam apenas traumas, perrengues, desacertos e tristezas.
Há quem grife o trabalho e a carreira, outros a família ou os filhos, outros viagens, outros amores e amigos, outros lutos.
O meu grifo é diferente do seu.
Se fôssemos reler nossa vida hoje, o que grifaríamos? Não tem jeito. A marca está feita, mas não define nossas vidas. Ou define?
Somos outros, aquela que leu ou viveu lá trás não é a mesma que lê ou vive agora. O mundo também é outro.
Da mesma forma que as viagens. Retornar a um lugar que gostamos ou odiamos pode ser uma enorme surpresa. Se grifarmos muito forte, a nova experiência certamente ficará comprometida.
Estamos todo o dia diante de uma obra nova, mesmo se acessarmos nossos grifos antigos, mesmo se nos apegarmos a eles, mesmo que a gente chore ou ria diante deles.
Alguém disse (acho que foi Marie Kondo) que prefere fazer anotações a parte das obras que lê para se reportar a elas quando quiser, sem machucá-las. Talvez seja mais sensato, já que poderemos passar o livro adiante para que outros usufruam dele com mais liberdade, sem ficarem sugestionados com nosso viés, que é sempre momentâneo ou permanecer com eles sem que fiquem muito datados.
Somos um livro novo todo dia e apesar da mão pesada das contingências atuais, e elas sempre existiram, e da história de cada um, podemos ainda escolher algumas passagens da vida pra deixarmos guardadas no nosso caderno da alma, enquanto aguardamos ou escrevemos os novos capítulos.
Desejei isso hoje nesse dia chuvoso.
Lena, vc. está hoje muito filosófica mesmo. Sem essa filosofia profunda, eu me reporto às lembranças da infância. Se retornarmos aos mesmos locais hoje, veremos como tudo está mudado, sem ter mudança material. Mas nossa visão hoje é diferente daquela época. Assim é a vida , evoluimos sempre ou involuimos, mas tudo muda.Felizmente ou infelizmente?
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