Os limites do autocuidado

Como quase todos hoje estão assoberbados, cheios de demandas necessárias (e criadas artificialmente também, é bom que se diga), há um tempo surgiu o termo e a recomendação de rotinas de auto cuidado. Skincare, escalda pés, amassar um pão, chazinho com livro ou série, enfim, a lista é diversa e bem legal, quase sempre muito direcionada às mulheres. (Porquê será?). Ter um tempo só pra si, no final das contas.

O que poderia ser apenas descansar, nos colocam a seguir fazendo coisas e vendendo produtos pra autocuidado também. Tudo vira nicho de mercado. E até o auto cuidado fica cansativo. Depende de nós no final das contas.

Somos também convocadas a plantar nossas ervas, a fazer nossa própria comida, o DIY está em tudo. Ou terceirizar, com deliverys impessoais e enjoativos, e que não servem pra todos, já que é preciso uma boa renda pra bancar isso tudo.

E aí? Estamos vivendo cada vez mais individualmente. Apartamentos pequenos só pra um, o dia todo trabalhando ou nas telas, dietas cada vez mais específicas, exercícios idem. Cada um por si, o capitalismo por todos.

Toda essa reflexão na realidade partiu de um vídeo que assisti de um médico ayiurvédico que acompanho que disse a certa altura,: “a saúde é um bem coletivo”. Fazemos escolhas individuais, claro, temos cuidados específicos individuais também que precisamos bancar, mas no final das contas, se a realidade toda à nossa volta está absurdamente doente, não tem check up ou autocuidado que deem conta sozinhos.

Um planeta doente, na UTI, poluição, trânsito, uma promessa não cumprida de que a tecnologia iria nos dar um alívio no excesso de trabalho e no stress, as famílias com suas proles à deriva num verdadeiro salve-se quem puder, qual pílula mágica salvará?

Estão surgindo agora “os coletivos”, grupos que se reúnem pra realizar algo que sozinhos não conseguiriam e/ou quando estão à margem do Estado. Se apoiam e dividem resultados e conquistas, prova de que o faça você mesmo tem um limite. Precisamos cuidar uns dos outros.

Muitos empreendedores também estão preocupados com sua cadeia produtiva, de forma tal que todos os participantes dela sejam cuidados e colham frutos.

A gente se acostumou a propagar a expressão dos voos dizendo: coloque sua máscara primeiro antes de ajudar o coleguinha ao lado. É fato, se não estamos minimamente bem, não conseguimos ajudar ninguém, mas também acho que levamos isso muito à sério e descuidamos da saúde no nosso entorno, que com certeza vai nos impactar.

Muitas vezes vamos ficando autoindulgentes, nos dando permissões pra compensar o estrago que essa realidade não raro tosca e aviltante nos causa e o círculo vicioso se completa.

A pandemia mostrou que diante de uma doença que assola o mundo todo, é claro que a solução não seria individual.

Esse limite da nossa capacidade pessoal de viver bem e a necessidade e o impacto do coletivo nas nossas vidas é um tema bem complexo, mas instigante e uma pauta importante, acho.

Assim, sem pretender concluir o tema, óbvio, só abrir o espaço, imagino que auto cuidado não diz respeito apenas a cuidados paliativos em casa, que são ótimos, e pratico alguns, mas ritualizar mais os eventos cotidianos, estar mais presente e menos no automático, poder e conseguir colocar limites, fazer escolhas, pedir ajuda e colo, reconhecer fraquezas, chorar, se entregar ao cansaço, abdicar do excesso, se nutrir de alguma esperança, silenciar, e não fazer nada também, que mal tem?

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