Este post é fruto de reflexões dos quase 7 anos adotando dieta vegetariana e de dois livros que li recentemente: Comer animais e Nós somos o clima, ambos de autoria de Jonathan Safran Foer.
Confesso que não é fácil. Ainda não é fácil sair desse padrão alimentar que nos acompanha há anos e não estou falando dos nossos ancestrais e sim de uma cultura recente de excesso de carne, excesso de tudo e excesso de nada.
Quando vou a qualquer evento as pessoas ainda dizem que há uma opção pra mim, como se comer qualquer coisa sem carne fosse algo inconcebível pra maioria das pessoas. Se não tiver carne, tem que ter muito queijo. É apenas uma opção geralmente restrita e limitada.
Restaurantes, então… estão longe de conseguirem tirar o protagonismo da carne e criarem coisas interessantes com grãos ou vegetais. Raros.
Junto com a cultura, seguem mitos, que muitas vezes são usados como desculpa. Da proteína, da falta de nutrientes, da necessidade de suplementação, da saciedade, do paladar. Não vou entrar nessa questão agora.
O nosso distanciamento da produção de alimento chegou ao ponto da nomenclatura da nossa dieta, que tem um universo de possibildades, estar ficando restrita a “carboidratos, proteína, gordura, acúcar, pré e pós treino”. Isso quem come comida e não pacotes.
Os animais estão na categoria de proteína e já são tratados como tal. E isso é muito triste.
Esse reducionismo é conveniente. Parece que estamos lidando com mais um produto alimentício apenas. Nos livra de responsabilidades e da empatia.
Quem se arvorar a saber minimamente o que os animais passam de atrocidades, violências, privações até chegarem esquartejados nas embalagens de isopor e nos supermercados, não se atreveria em chamá-los de proteína ou pelo nome das suas partes.
As crianças não costumam conviver com animais além dos pets que são tratados a pão de ló e que também sofrem com nossas carências e com a nossa falta de noção.
A carne é apresentada a elas como “carninha” mas num primeiro momento elas não sabem o que é aquilo, de onde vem, se é plantado, dado em árvore, ou fruto de uma gestação. Talvez em livros. Da mesma forma o leite que já vem em caixas. Mas importa?
Às vezes elas vão em hotéis fazenda ou sítios, correm atrás de galinhas, alisam vaquinhas dóceis mas não sabem que o que está no prato delas é aquilo tudo.
Na minha geração era mais comum saber, mas a produção não era como hoje, não havia essa consciência civilizatória e um problema ambiental tão gigante.
Como vai ser quando souberem? Estamos preparados? Não sei. Pode ser que não se importem, como a gente que veio antes também não, logo saberemos.
As próximas gerações, comenta o autor, podem nos questionar: vocês sabiam disso tudo e não fizeram nada?
Para além da questão animal, é incontroverso hoje que a produção de animais e tudo o que envolve esta indústria, da forma como é feita hoje, é absolutamente insustentável sob qualquer viés, e é uma das maiores causas, senão a maior desse cataclisma ambiental, porque envolve espaço, desmatamento, gasto de água, envenenamento de lençóis freáticos, agrotóxicos, antibioticos, gases, doenças.
Fora os riscos nada improváveis de novas pandemias e doenças desconhecidas.
É alarmismo? Não, não é.
Fato é que não precisamos de tanto. Ninguém precisa comer carne todo dia, três vezes ao dia. Quem não passa por privação de alimento com certeza está consumindo muito mais proteína do que o necessário. É fácil verificar pelas recomendações da OMS. E ainda andam se entupindo de Whein protein.
Além, disso, o aumento exponencial da produção de carne não está livrando o mundo da fome e da má alimentação. Quem pode com isso?
Mas não importam os alarmes, as informações, os documentos dos cientistas, os livros…Não mexam na minha carne! Ficamos igual crianças birrentas.
Ah mas não adianta. Esse capitalismo, né? Esses governos né? Mas somos nós que compramos, As redes estão aí também.
Eu confesso que não estou preocupada com você nem comigo que temos acesso a informação, alternativas e livre arbítrio.
É inadmissível a esta altura tolerarmos o que tem sido feito ou o que não tem sido feito.
Tudo sobre o que disse aqui e tudo o que diz respeito a este assunto está amplamente disponível pra quem quiser realmente saber e em todo tipo de formato. Basta querer.
Não estou neste texto convocando as pessoas a se tornarem vegetarianas, nem creio ser possível, quem sou eu, mas este post é um apelo sim pela redução de consumo ao menos, sendo bem direta.
Todas as pautas hoje estão vinculadas e dependentes dessa: a da nossa sobrevivência. Se não pelos animais, por você mesmo.
“Aquilo que esquecemos sobre os animais começamos a esquecer sobre nós mesmos.” Jonathan Safran Foer.
“Se nada importa, não há o que salvar.” da avó do autor.
Lena…quando eu crescer, quero ser, pelo menos um pouquinho, como vc. Terei tempo?
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