Querido diário,
Então.
Estamos mesmo vivendo tempos líquidos. Nada mais é pão pão, queijo queijo.
Tudo tem nuances, muitos tons, dissonâncias.
Isso vale pra questões de toda ordem.
De gênero, de relações afetivas, familiares, institucionais, pessoais, culturais.
Saímos do útero quentinho e de cara somos jogados em experimentações, modas, neuroses, agulhadas.
Querem que a gente ria e não chore. Como não chorar?
Temos todo um leque de gêneros, mas criaram o “chá revelação”. Rosa ou azul. Quem pode com isso?
Não sabemos mais nem quem é a criança ou o adulto da relação.
Querido diário,
Achamos que com a queda do muro de Berlim a guerra fria terminaria, e com ela a polarização. Que nada.
As guerras também tem agora muitos tons, e são eternas, endêmicas.
Nunca mais ouvimos comemorações de um fim de guerra. Só novas iniciando, deixando rastros de destruição, criando grupos extremistas, resgatando opressões já vencidas.
Antes, querido diário, esporte era só esporte, política era política, oposição era oposição (“Se hay gobierno, soy contra”), vivíamos a trindade familiar, pai, mãe, filhos, disfarçávamos os preconceitos, mantíamos pessoas nos seus armários, uma só religião predominava, determinávamos que música era boa, que música era ruim.
Tudo “parecia” estar nos seus respectivos quadrados, apenas uns hippies drogados e uns roqueiros destoavam da estrutura, e depois foram devidamente enquadrados também.
Não sou saudosista, tá? É só uma constatação. Bom frisar, porque as patrulhas vivem atentas a nos apontar dedos. Sabia?
Agora, tudo líquido, escapando pelos dedos, mas muita gente ainda cheia de certezas.
Grupos identitários diversos, dívidas sociais a serem pagas, muita gente puxando o cobertor pro seu corpinho, e um mundo com limitações escancaradas. Um salve-se quem puder.
Não sabemos se abraçamos as últimas árvores que restam ou compramos o Iphone novo.
Nos agarramos então como náufragos em algorítimos, que nos dizem o que fazer, o que comprar, quem seguir, em quem votar, como educar, como viver muito, o que comer, aonde ir, como chegar em segurança.
Sim, queremos a liquidez, mas queremos segurança também, nada de nos perder por aí.
Todo mundo quer ter voz, claro, muita gente pondo fogo no parquinho, outros se agarrando nos seus privilégios seculares, e a gente segue literalmente “catando cavaco”, em quedas de braços com o mundo e com a gente mesmo.
Não sabemos mais do que rir, do que genuinamente gostamos, é muito excesso de opção, e pouco ou nada pra nos nortear.
Pintamos cabelo de toda cor, nos enchemos de tatuagem, piercings, bigodes, barbas, estamos sempre buscando uma identificação, uma tribo. Isso não muda.
Mas as tribos também são líquidas, querido diário. Hoje é uma, amanhã pode ser outra. Que bom podermos transitar.
Mas não é bem assim também. Temos todos os “ismos” pra driblar. O etarismo, o machismo, o racismo, a homofobia, a eterna luta de classes…
Noto um certo alívio quando as pessoas dizem: “que bom que as instituições estão funcionando”, mesmo de forma capenga.
Precisamos de um norte, um limite, um apoio.
Do contrário, muitos acabam se apoiando em ditadores, populistas, coachs, gurus, fundamentalistas, medicações, drogas de toda ordem, pegam em armas…
Mas as instituições estão arcaicas, patriarcais, sem representatividade. Pouco inclusivas. Ai, ai.
A natureza era uma referência, hoje não respeitamos mais nem o dia e a noite.
O inverno agora é chamado de “frente fria”, querido diário, só pra te informar.
Queremos tudo, ficar acesos 24 horas, num looping de “Fear of missing out”, e de ansiedade e depressão.
Nem respirando direito estamos.
Então, querido diário, a liquidez está dada, mas a natureza, de novo ela, está nos colocando limites, e não estamos prontos pra esta conversa.
Ai meu Deus ! Deus é o mesmo ?Eterno, imutável , admirável?
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