É o fim da subjetividade?

Então…nem sei por onde começar.

Estes dias, entre as dezenas de tretas que rolam diariamente, está no top trending o livro “bobagens”, da cientista Natália Pastermark, em que ela e o coautor desbancam as chamadas pseudo ciências, colocando no balaio a psicanálise. E virou um alvoroço.

Não li o livro e não venho aqui defender ou atacar “terapia” alguma.

O que me angustia, é que vivemos numa época em que tudo tem que ser validado pelas evidências científicas. Claro que uma patologia bem diagnosticada tem que ser tratada com as ferramentas médicas.

A minha questão é a padronização das pessoas, da patologização das nossas questões existenciais. A ideia de que o mal estar é sempre individual e assim deve ser tratado, mesmo que o ambiente em torno esteja absolutamente tóxico. E mesmo se assim fosse, é da natureza do ser humano a angústia, o inconformismo com a morte e com suas limitações.

Ouço muito hoje a palavra funcional. Avaliamos tudo sob este viés. Nosso prato de comida tem de ser funcional (proteína, carboidrato, verduras e legumes), não importa se é ovo, frango, lentilha, beterraba ou couve. Nem damos mais nome aos alimentos.

Assim é conosco. Se estamos “funcionais”, estamos bem, dizem. Não, nem sempre e tudo bem!

Às vezes estamos funcionais, mas com dor de cotovelo, com medo de alguma coisa, fomos traídos, puxaram nosso tapete, queremos mudar e estamos paralisados… e estes sentimentos nem sempre se “resolvem” com medicamentos e nem sempre é para resolver.

Acho que todo mundo que passa por aqui entende que não estou defendendo abandonar medicamentos e cuidados.

O nosso ambiente cartesiano coloca todo mundo numa estatística e se sairmos dela temos que olhar. Os exames de sangue hoje nos dividem em homens, mulheres, crianças. Colocam mínimos e máximos e essa costuma ser a régua da saúde.

Tudo isso deveria ser um ponto de partida e não um fim em si mesmo e nem sempre é.

Estou sendo radical, mas pra chamar a atenção para o fato de que temos uma individualidade, um contexto familiar, social, etário, econômico, etc.

Essa funcionalidade muitas vezes atende mais ao nosso sistema produtivo e a “sensação” que produz na gente de que fulano está bem, posso ficar tranquila e tocar a vida, do que para o bem estar da pessoa mesma e isso vale para todas as idades.

Hoje temos os remédios, ótimo, mas houve tempo em que também se escreviam cartas ridículas, escreviam poemas, músicas, diários, se filosofava, se chorava nas mesas de bares apenas, e não postava fotos falsas de bem estar fazendo caras e bocas. Todo mundo diz hoje em forma de memes que vive ansioso, ou deprê. A gente não separa mais o joio do trigo e sempre uma coisa tem que excluir outra.

O neurocientista Sidarta Ribeiro se debruça sobre os sonhos e vai buscar material na cultura indígena ancestral. Não este sonho capitalista e materialista de “quero fazer ( e não conhecer) tantos países e marcar no mapa mundo, mas sonhos coletivos, idílicos, utópicos que podem unir a nossa espécie.

Portanto, fico triste em ver que o debate mais uma vez caiu no fla x flu, na polarização, na exclusão. De vencer ou perder.

Seja em rodas em volta de foqueiras, seja em cultos, seja assistindo a jogos de futebol, medicando, alguns comprando, estamos sempre tentando tampar um vazio, uma falta qualquer, uma dor, uma carência, um luto, uma perda, nem que seja a do colágeno (rsrs)

E se tamparmos, perecemos.

Um comentário em “É o fim da subjetividade?

Deixar mensagem para Leonardo Cancelar resposta