Sessentei

E não é que virei a casa dos 60?

Tinha feito um post textão sobre tudo o que representa a tal “terceira idade” entre nós, já que legalmente ela inicia aos 60 anos.

Invisibilidade, estigmas, os antiaging, a solidão, inadequação, as cobranças, o utilitarismo e o abandono, etc.

Mas larguei pra lá quando lembrei que sou contemporânea de Fernanda Torres, Andrea Beltrão, Zelia Duncan, Michelle Obama, Renata Lo Prete, Patricia Pillar, Chico Cesar, Denise Fraga, Kamala Harris, Ailton Graça, Gloria Pires, minha família próxima, primos e primas, amigas queridas, e uma galera que tem muito a desejar, conquistar e barreiras a romper.

Sou da turma das dancinhas esquisitas, John Travolta, mullets, dos inúmeros casamentos “na polícia”, como chamávamos, por conta de ausência de educação sexual.

Cresci com Chacrinha, chacretes e seus abacaxis, Fantástico e a Zebrinha da loteria, com o Jornal Nacional de Cid Moreira e com as inúmeras e longas novelas.

Faço parte de um time que viveu sem democracia, Batalhou pra restaurá-la e assiste hoje aos riscos que ela corre. Da hiperinflação e do estoque de alimentos.

Da nossa eterna polarização, com a Guerra Fria e o medo da terceira Guerra Mundial.

Do time que nasceu analógico e rebolou pra angajar no digital, deixando claro que isso não é pouca coisa e ainda sofremos bullying.

Minha turma já tem mais condições de escolher e mais informações de como envelhecer melhor e quem vier depois de mim já poderá saber de antemão o que é e como lidar com a menopausa, coisa que ainda é bem obscura entre nós.

Feito este pequeno recorte, ninguém pode dizer que minha geração não tem jogo de cintura.

Seguimos marcando posição na base do “cala boca já morreu” e tentanto estar up to date neste mundo cada vez mais complexo.

Toda geração abre e pavimenta caminhos, (cava buracos também) e deixa sua marca. No caso das mulheres mais ainda, já que seguimos batalhando por espaços, qualidade de vida e pela própria vida neste mundo ainda muito patriarcal.

Trazendo um pouco do texto que abandonei, percebo que valorizamos a longevidade mas não nos preparamos para ela enquanto sociedade, não consideramos a experiência e a sabedoria dos mais velhos nestes lado do oceano e no ambiente secular urbano em que habitamos. Somos enquanto produzimos.

Mas tudo isto na verdade é pra celebrar. Cheguei até aqui com saúde, trabalhei, cuidei, tive e aproveitei muitas oportunidades, acompanhada de pessoas queridas, fui feliz todos os dias, até quando não estava, amei, amo e sou amada, sei bem e reconheço.

Só tenho a agradecer e seguir traçando meu caminho no meu ritmo. O ritmo do meu momento. Uma caminhada sem nada de extraordinário, mas é a que tenho e reverencio.

Um beijo especial para meus pais que calçaram muito meu caminho e meu caminhar.

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