Eu sei que foi o fim de semana do Oscar. Não posso opinar, não assisti nada (ainda) e não falo como vantagem, só constato.
Mas maratonei a série Fim, da Fernanda Torres.
Confesso que estava resistindo a assistir. Como já tinha lido o livro, sabia da temática. Morte, finitude, velhice, temas que nos causam aversão.
Mas ela me pegou por muitas razões, além dessas. Acho que por se passar no espaço de tempo que coincide com o que vivi minha juventude e idade adulta e com o meu momento atual.
Como dizem agora, são muitas camadas.
A série mostra várias versões masculinas unidas por uma amizade e a gente percebe a diferença entre a amizade entre homens e a que acontece entre mulheres.
Ela se passa no período do final dos anos 70, o rescaldo do movimento hippie, do sexo, droga e amor livre. Entra pela caretice dos anos 80, família, trabalho, propriedade, e faço a ressalva de que, ao mesmo tempo, pelo menos por parte da classe média, este perfil mais pragmático possibilitou ofertar à geração seguinte um colchão de educação, cultura e experiência que a colocou na dianteira no mundo em processo de globalização.
Claro que a arte amplifica, mas identifiquei na série tudo o que vivi e como era a sociedade na época.
Temos lá representados alguns formatos de casamento, o sexo que aprisiona ao invés de libertar, e lógico, o machismo em suas diversas nuances.
Homens sofrem, mas não sabem ou não sabiam lidar. Não que as mulheres saibam bem, ninguém sabe, mas eles fogem, escamoteiam mais do que a gente e fazem do sexo sua catarse.
Passada no Rio de Janeiro, a série não esconde suas belezas nem a hipocrisia e a orgia da elite que posa de puritana e do bem, mas nos bastidores deita e rola. Não ficam de fora nem os porteiros, os eternos coadjuvantes locais.
A série me fez pensar sobre nossa relação com as drogas. Nela, os holofotes estão principalmente no álcool. Elas foram usadas sempre como fuga da realidade ou como um produto relaxante, e ainda são, mas hoje, com a droga medicamentosa em alta, talvez busquemos, ao contrário, uma forma nos encaixar nos padrões e nesta realidade confusa em que estamos metidos.
Cabe registrar ainda as atuações. Tenho muito respeito e admiração pelos autores e atores nacionais e eles estão ótimos.
Constatei ainda que filhos serão sempre sobreviventes de relações e ambientes neuróticos, em qualquer época.
De resto, a morte sempre lá, na espreita, buscando um a um.
Agora corremos atrás da longevidade e alguns até da imortalidade, nos monitoramos o tempo todo, o fitness virou uma droga também, mas uma pergunta que ouvi há um tempo atrás e que me ocorreu agora é: queremos viver ou durar?
Não existe fórmula. Esta é a nossa angústia maior.
Muito bom.
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ótima análise. Vou ver a Série 😘
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