Lastros

Conversava hoje com minhas sobrinhas sobre as datas religiosas, suas representações e de lastros. Ou a falta deles.

Na Páscoa a Igreja Católica reconstitui toda a saga da morte de Cristo, sua via sacra e morte na cruz, que segundo ela, morreu para nos “salvar” e “ressuscitou” para mostrar que só há salvação na fé. Assim acho que é o sentido que o catolicismo dá.

A gente sabe que hoje, se vivo fosse, passaria de novo por tudo. Seria taxado de comunista, vagabundo, do “direitos humanos”, protetor de desocupados. (Algo parecido com Padre Lancelotti?).

Portanto, ao que parece, não aprendemos nada com Ele ou só usamos equivocadamente sua imagem e sua história para nos iludir com a ideia de que alguém um dia virá nos salvar, ou que temos que arder em culpa em vida por sermos tão maus e que só teremos a redenção depois da morte.

Triste adágio, não?

Segundo esta doutrina, domingo de Páscoa seria o dia da renovação da fé. Mas fé renovada apenas não basta, nem para os que creem.

Basta ver o ambiente de guerras endêmicas, morte impiedosa de crianças, a violência urbana que nós privilegiados acompanhamos com falsa indignação, um torpor de drogados e grades nas portas, a derrocada das condições de vida na Terra, que colocam em prova a nossa ou pelo menos a minha capacidade de acreditar em qualquer tipo de redenção proposta por religiões.

Nosso materialismo, de outro lado, e a atual falta de sacralidade também não tem ajudado a nos tirar desta enrascada ética entre nós mesmos e o Planeta. (Marcelo Gleiser)

Mas trazendo para a vida real, a pergunta que fiz para minhas sobrinhas, foi: qual lastro dar para um dia de recebimento de ovos de Páscoa, almoço festivo, se muitos não creem ou outros acham que a religião é um entrave secular? Se “papai do Céu” morreu, o que estamos comemorando?

Muitas pessoas dizem acreditar num Deus próprio, em “algo maior” que comanda tudo. Virou um balaio de gatos e muitos bebem em fontes ecumênicas, conforme a “necessidade”.

Cada um com sua crença particular e não vai aqui nenhum julgamento, mas fato é que a transcedência é pauta do ser humano ontem, hoje e sempre.

Se não pela religião, pela arte em todas as suas expressões, no primeito de muitos sorrisos de uma criança, na alquimia de um alimento, na partilha, em todas as formas de oração, até no choro. Como está difícil chorar…

Imagino que as crianças esperam de nós não certezas, não outros dogmas e cartilhas excessivamente engessadas, mas a nossa transparência, sinceridade, empatia com as diferenças, abertura e porque não a nossa vulnerabilidade diante de tantas questões e dúvidas que estamos enfrentando. Tudo valendo para adultos também.

Portanto, na falta de uma orientação da minha mãe, que nos deu lá trás e que certamente daria hoje se falando estivesse, ficamos sem lastro até para respeitosamente contestar e escolher seguir ou não. Acho que estamos no limbo queridas sobrinhas. Sorry.

Se Deus existe, ele vive a juntar nossos cacos.

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