Ter x descartar

Estes dias a minha família está imbuída na tarefa de desmontar o apartamento da minha já saudosa mãe, recém falecida.

Afora a questão afetiva e emocional, as lembranças doídas e o desejo de manter sua lembrança viva através de objetos, me pegou a dificuldade de descartarmos as coisas atualmente.

O meu “letramento” ecológico, embora parco e claudicante, me diz que não há lixo, mas resíduos, e que devemos fazer o descarte correto das coisas, embora seja tarefa árdua, já que as empresas ainda fazem muito pouco nesta seara e o poder público ainda engatinha nas ações e na educação.

Fato é que, adquirir hoje é super fácil, alguns cliques e poucas horas depois e temos tudo e qualquer coisa na nossa porta, muito bem embalado.

A obsolescência, os modismos, a necessidade que temos hoje de novidades o tempo todo e a oferta delas dia e noite nas nossas redes, faz com que tenhamos sempre mais do que precisamos e isso extrapola poder aquisitivo alto ou baixo. Há bugigangas de todos os preços, descartáveis, algumas úteis mas que facilmente passaríamos sem.

Enfim, o comércio on-line escala, as lojas de utilidades domésticas, de maquiagens e acessórios se multiplicam aos montes, e os influencers se enriquecem.

E ainda somos engambelados pelo greenwhashing.

Mas e o descarte?

Cuidamos dele? De quem é a responsabilidade? Cobramos? Fazemos a nossa parte? Ao menos nos preocupamos? Adianta?

São muitas perguntas, muitas narrativas diferentes, mas o fato é que o volume de “lixo” só aumenta e uma parte dele já faz parte do nosso corpo: os microplásticos.

O paradoxo é que a informatização e a digitalização não redundaram na redução de nossos resíduos. Nossa vida está nas nuvens, mas nossa pegada na terra ainda é grande.

Colocamos nossos descartes na porta para alguém recolher, e da porta em diante, lavamos as mãos, quase sempre. Às vezes nem a bandeja cheia de lixo do lanche no shopping nos dignamos a retirar.

Por menos que uma casa tenha, é sempre muito, vejo agora.

Coisas muito úteis, sem dúvida, a tecnologia ajuda, mas o excesso impera, e o conserto é muitas vezes inviável e desestimulado pelo baixo preço do substituto mais moderno e até pela falta de tempo.

Nem sempre nos preocupamos com a origem do que compramos, nem com seu destino.

Tudo parece simples no começo, mas é complexo no final.

Temos muita coisa, mas deixaremos o que afinal para as próximas gerações?

Lena

+55 (31) 9836-6284

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