O útero, mais que um órgão, é uma metáfora da vida. .
Acolhe, expulsa, comprime, expande, e marca ciclos.
Quando a gente nasce e sai do útero, choramos, mas temos que seguir em frente, não com nossas escolhas, mas com o que nos é oferecido.
Passamos grande parte da vida em seu entorno, “decidindo” entre ter ou não ter filhos, quantos ter, quando ter, enfim. Além disso a expectativa mensal da possibilidade de fertilização também nos impacta de uma forma que não sabemos explicar.
Na maturidade, temos que desapegar do útero de novo, e novamente choramos, resistimos, mas não conseguimos frear o fluxo da vida, e temos que seguir em frente, agora fazendo nossas próprias escolhas.
No chamado período fértil, com ou sem filhos, estamos no olho do furacão, fazendo muito o que esperam de nós, da forma como acham que devemos fazer. Na maturidade e liberadas do tal “relógio biológico”, ainda temos a chance de fazer diferente, ou não fazer. No mundo massificado de hoje não fazer determinadas coisas vale muito.
É um enorme desafio, porque exige autoconhecimento e coragem pra lidar com este rastro de liberdade.
A alma feminina extrapola a procriação, portanto, não se concentra somente na “utilização” do útero. Quando descobrimos isso podemos nos sentir inteiras com ou sem ele em nós, com ou sem filhos, e em qualquer fase da vida.
Às vezes saímos do foco do útero e buscamos o feminino e a fertilidade nas demandas externas. Nas amarras da vaidade impostas pelas indústrias ou na imposição da eterna juventude à custa às vezes de deformações físicas e psíquicas.
Sigo arriscando estas divagações muito pessoais, sabendo que o tema é profundo, complexo e espinhoso.
O feminino é talhado nas sutilezas, daí associá-lo com fraqueza ou fricote nos levando à sua negação. “O mundo é para os fortes”, assim nos ensinam e aos homens também. E seguimos “em luta” com nós mesmos e com os outros.
O mundo está realmente hardcore, é fato, mas aceitar e acolher o feminino que habita em todos nós precede ao “enfrentamento” feminista e pode ser libertador também para os “machos” de plantão. É o tal empoderamento mais profundo e não o midiático.
Talvez seja o caso de buscarmos a fertilidade e o feminino para além do útero (e assim incluir todos os tons de gênero): no coração empático, no olhar vivo e atento, no colo que acolhe, na criatividade e na partilha, na mente curiosa, na espiritualidade adormecida.
Difícil, mas quem disse que a vida é fácil?
Texto maravilhoso! Parabéns!
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